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Investigações de possíveis relações entre o crime organizado e o alto escalão da administração dos presídios do Pará

Por: Redação
Publicada em 05/04/2021 às 14:39
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“E aí, 41? Boa tarde, Leonardo. Aqui é o coronel Vicente”.

De um lado da linha, uma autoridade do alto escalão do governo do Pará. Do outro, o Léo 41, um dos chefes de uma facção criminosa do Rio de Janeiro. A conversa aconteceu em janeiro deste ano. O coronel Vicente está dentro de uma cela da unidade II do Centro de Recuperação Penitenciária, que fica em Santa Isabel do Pará, perto de Belém. Junto com o coronel estão quatro presos, todos da mesma facção, e acusados de assassinatos e roubos a transportadoras de valores, entre outros crimes.

“A gente sabia que eles tinham esse contato aí com vocês. E a gente veio esclarecer alguns pontos”, diz o coronel Vicente, no telefonema.

O Estado do Pará vive uma guerra entre criminosos e servidores que trabalham nas cadeias do Estado. Em apenas quatro meses, de setembro do ano passado, até o dia do telefonema com o chefe da quadrilha, aconteceram pelo menos sete (7) atentados e o assassinato de três (3) agentes prisionais e dois (2) policiais penais. Em janeiro, os servidores protestaram.

A CONVERSA NO PRESÍDIO

Um detento que está com o coronel Vicente, é Jorge Luiz Pereira (vulgo Nena), ele está preso desde o ano passado, acusado de matar três pessoas, inclusive um policial militar. Também estaria envolvido nos ataques contra os policiais penais. Nena explica para o chefe da quadrilha o motivo da conversa. Em troca do fim dos atentados, os presos ganhariam melhores condições dentro das cadeias.

“Vão liberar o colchão, que tá todo mundo na pedra. Tá ouvindo?”, diz Nena a Léo.

Léo 41 é Leonardo Costa Araújo, o chefe da quadrilha. Condenado por roubo, ele está foragido (evadido) desde outubro de 2019, quando conseguiu o benefício de sair da cadeia no Dia das Crianças, e não voltou mais.

“Vai liberar banho de sol. Vai liberar quatro refeição por dia, que é coisa que a gente também não tamo tendo (sic)”, continua Nena.

A autoridade que negocia com bandidos é Vicente Neto, tenente coronel da Polícia Militar do Pará, e comandante do COPE (Comando de Operações Penitenciárias). O COPE é vinculado à Secretaria de Administração Penitenciária, e responsável pelas vistorias e gerenciamento de crise das cadeias do Estado.

“A gente tá providenciado. Que são os colchões, banhos de sol. A gente vai conversar com o diretor que não está cumprindo esta medida que está na Lei de Execução Penal”, responde o coronel.

Léo 41 reclama que os presos costumam ser agredidos. O coronel Vicente responde. Disse que já exonerou um diretor suspeito de mandar torturar detentos, e faz uma promessa ao chefe da quadrilha.

“Papo de homem aqui. Se chegar ao nosso conhecimento, de imediato, nós vamos tomar as medidas cabíveis para com o servidor. Não tem espancamento. Eu não preciso tá entrando na cela, tirando preso da cela, pra tá torturando”.

Outro ponto da negociação: as vistorias quanto ao uso da tornozeleira eletrônica. Léo 41 diz que alguns presos não querem a presença de policiais em suas casas.

“Leonardo, passa, eu sei que tu tem o contato, os presos que estão aí com tornozeleira eletrônica. Que procure a central de monitoramento. O cara não quer que a gente vá lá na casa dele. É só ele ir lá na central, verificar a tornozeleira, que não vai ter esse problema”.

A negociação termina. Léo 41 diz que vai mandar que os ataques parem.

“Hoje mesmo eu vou pedir pra ser certificado um salve, um circular, pra parar o que tavam fazendo”.

O chefe da quadrilha mandou essa ordem para os comparsas.

Depois do suposto acordo, o secretário de Administração Penitenciária do Pará, Jarbas Vasconcelos, convocou uma reunião no dia 26 de janeiro de 2021. Entre os presentes estavam diretores de cadeias e representantes dos policiais penais.

“O secretário, muito empolgado, pediu o apoio de todos os diretores, para que todos os diretores passassem a permanecer, pernoitar, dentro das unidades penais, para não acontecer nenhum tipo de excesso, porque ele tinha feito um acordo com esse líder da facção criminosa”, denuncia Fernando Anunciação, presidente da Federação Nacional Sindical dos Policiais Penais.

Um dia depois da reunião, o secretário emitiu ordem de serviço determinando que os diretores passassem a noite nas cadeias.

Segundo um policial penal, depois da negociação, colchões começaram a ser distribuídos. “Alguns caminhões lotados de colchões. Colchões novos só para três presídios”. E o policial crítica: o Estado deveria punir e prender os criminosos responsáveis pelos ataques e não negociar com eles. “Nesse áudio, a gente vê claramente, que o Estado sabia quem estava dando as ordens. Quem, dentro da cadeia, difundia essas ordens”.

Em fevereiro não houve ataques nem assassinatos de policiais penais. Já em março…

Nos últimos 30 (trinta) dias, três servidores do sistema prisional foram mortos fora do horário de serviço. Existiu mesmo algum tipo de acordo? Ele teria sido quebrado? As apurações já estão em andamento.

“O crime voltou a atacar os colegas, voltou a ter ataques. Acordos feitos com facções criminosas, é inadmissível. O crime não pode se impor diante da segurança pública do estado, nem do país”, assevera Fernando Anunciação.

Eduardo Imbiriba de Castro, secretário-geral da OAB/Pará, reitera: “É um absurdo, se constatar, que o Estado está fazendo acordo com o crime organizado. A gente tem que saber o que está acontecendo no âmbito do sistema penitenciário paraense”.

Matéria exibida no Programa Fantástico/TV Globo, em 04/04/2021

 

 

 

 

Fotos: Reprodução

 

 

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